terça-feira, 5 de setembro de 2017

O valor crucial dos resultados invisíveis

Analisem a seguinte informação: O Brasil é o país que mais tem faculdades de medicina no mundo! O governo anda autorizando a abertura de escolas médicas, e claro, especialmente as particulares.Isso é bem condizente com um histórico infeliz, onde ao longo dos anos a Medicina veio deixando de ser Arte e/com ciência para virar uma prática comercial. O curso sempre foi elitista e desafiador e, antigamente, ser médico era visto como sinal de muito estudo e dedicação, uma profissão prestigiada por ser realmente muito difícil, delicada, poucos se arriscam a ter tamanha responsabilidade.

Mas consideremos o perfil do nosso país. Vamos combinar em se tratando de seriedade e responsabilidade, principalmente em si tratando de ações públicas, com repercussões populacionais, e principalmente envolvendo dinheiro, impunidade e esquemas, estamos longe demais de considerar a abertura de tantos cursos médicos como algo positivo. Saúde é um conceito que envolve uma série de determinantes e a ilusão de que se precisa de mais médicos pra ter mais saúde chega a ser leviana. A mídia, as clínicas, os laboratórios, os hospitais, estão cada vez menos preocupados em saber se as pessoas andam saudáveis, se sentindo bem. Pelo contrário, gente doente dá um lucro danado! A ideia é fazer o dinheiro movimentar: exames desnecessários, um médico especialista para cada pedaço do corpo e medicações mágicas vendidas como água, sem critério, sem consideração ética, e muito movimento financeiro.

Eu vejo as pessoas vivendo numa correria desenfreada, um caos moderno, onde as soluções devem ser rápidas e práticas, queremos menos filas, querendo não sentir dor, queremos remédios pra dormir rápido, uma ressonância pro corpo todo e check-up todo ano. É assim que a lógica sinaliza onde o negócio deve atuar, não existira essa abertura de cursos se não fosse toda essa cultura de desespero. O Vejo pessoas doentes, aborrotando leitos e lotando serviços de emergência para apagar o fogo emergente de um problema de saúde velho, levando seu corpo no desgaste máximo por pouco auto-cuidado. Bilhões sendo investidos em intervenções para corrigir situações evitáveis.

É aqui que eu explico o título do texto. Desde o curso médico eu não consigo lidar com a sensação de fingir que cuido, dando alta para alguém que eu sei que não vai melhorar, vendo situações que deveria ter sido cuidadas desde o início. Poderia pagar minha mensalidade, virar médica, abrir consultório, cobrar para prescrever e virar um robô, com condutas mecânicas, reproduzindo protocolos divulgados e patrocinados por empresas cheias de conflitos de interesse achando que estou fazendo medicina e ganhando muito dinheiro. Mas eu não consigo. Tenho o defeito de achar que médico de verdade não é o que tira a dor, é o que cuida de você para que você nem a sinta. A atenção "básica" é chamada básica porque é fundamental, é a base de todo sistema de saúde que preste.

Eu podia estar correndo nessa estrada competitiva de angariar clientes, fazer propaganda, oferecer serviço pra quem pode pagar, esperar que as pessoas adoeçam para me procurarem desesperadas, vulneráveis, com o bolso frouxo querendo "resolver" seu problema agudo dispostos a pagar. Enquanto a lógica segue esse rumo eu acredito em investir na base, em auto-cuidado, em prevenção, educação em saúde. A cada notícia sobre o governo atual eu vejo que o futuro é assustador. A pessoas estão perdidas, desesperadas, adoecidas, enfurnadas no trabalho, sustentando um sistema explorador, pagando os impostos mais caros do mundo e sendo iludidas com soluções falsas e mercantis.

Poderia ser desesperador pra mim também, romântica do jeito que sou e assistindo as coisas se afundarem. Mas eu também acredito que toda lógica de mercado segue os balanços da economia, o mercado satura, ocorre desvalorização, acaba o glamour e prestígio, aumenta a desconfiança, os profissionais pouco qualificados não se sustentam, mesmo sabendo que eles serão cobertos pelos esquemas e principalmente pela ignorância das pessoas, medicina é delicado e infelizmente eu prevejo a enxurrada de más práticas repercutindo de uma forma alarmante. Até chegar um ponto de ser exigido exame de ordem e então uma segunda seleção de quem realmente pode ter o aval de exercer a profissão, como aconteceu com Direito e a advocacia. O que resta é reforçar postura de procurar ser saudável em seu conceito amplo, selecionar bons profissionais pela postura e conduta ética e torcer, torcer muito, para sua saúde não virar mercadoria. Não condeno quem escolha atuar em esquema privado, esse texto é uma reflexão críticas para as práticas que passam do limite do respeito e chegam a ser atuações de má fé, se aproveitando de situações e pessoas fragilizadas. E eu não estou falando só de gente pobre não, vejo muita gente gastar rios de dinheiro a custa de ignorância.

Enquanto isso vou na luta contra-hegemônica de ter que explicar o porque eu continuo no caminho mais difícil. Enquanto as vitrines e status dessa era de pessoas expostas em rede sociais, existe Ainda  um caminho de luta por resultados invisíveis, sem chance de fazer fotos "antes e depois", onde a prioridade é ver pessoas saudáveis, e quanto menos exames melhor, quanto menor precisar internar melhor, quanto mais autonomia, conhecimento e condições para você puder cuidar de si melhor. E como seria possível evitar cair nessa lógica? Aprendendo sobre saúde e cuidado. Mesmo quando adoecer saber o que é melhor ser feito. E eu não digo aprender do jeito que a faculdade ensina, me refiro ao aprendizado que o seu bem-estar merece.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

O impacto das pequenas coisas desapercebidas

Em 2012 eu fui ao museu do Louvre pela primeira vez. É uma visita "obrigatória" em Paris, você precisa reservar o dia todo para conseguir digerir a quantidade de informações naquela imensidão, no meio daquela multidão. Muita, muita gente, de todos os lugares do mundo transitando incansavelmente. Eu vi a Monalisa, o código de Hamurabi e a réplica do quarto de Napoleão. Mas eu tenho a memória visual praticamente impecável de algo que todos olharam mas eu tenho quase certeza que não reparam num "detalhe".
A placa de localização numa das escadas principais, tinha um mapa com as alas e, no centro, a sinalização de "você está aqui". O detalhe era que o "x" que marcava o ponto no mapa estava totalmente destruído, a despeito do material de alta qualidade, estava esburacado e observando um casal oriental eu descobri o porquê. Todos que olhavam o mapa, naturalmente, de forma reflexa e inconsciente encostavam o dedo na placa e diziam "estamos aqui".
Mas eram centenas e centenas de pessoas, tocando sutilmente naquele ponto, a todo momento e eu acho que mesmo aquela placa sendo trocada com frequência (pois o restante do material não estava desgastado) o estrago natural era inexorável. E porque eu estou falando isso? Porque naquele momento eu me dei conta de como algo repetido inúmeras vezes de forma natural, a longo prazo, tem consequências que não conseguimos enxergar durante nossa participação pontual.
Se ali houvesse um aviso: "não toque na placa, pode estragar", a maioria iria ler e achar: "nossa, que bobagem". Da mesma forma, um supermercado rende milhões tirando um real de cada compra. Uma operadora de celular rende milhões tirando um real de cada conta. Um político rende milhões tirando um real de cada contribuidor. E quando alguém diz que vai acionar a justiça por causa de um real: "nossa, que bobagem".
O que eu quero dizer é que não temos noção da repercussão dos efeitos danosos da "coisas pequenas". É só uma metáfora prática de como estragos que são feitos aos pouquinhos podem sim, resultar em fins grandiosos. Quando uma pessoa ouve "só uma piada", tem o mesmo efeito que dedada na placa, um mísero real roubado sem você perceber, uma picada de uma abelhinha pequena e sozinha. Quando você sofre esses efeitos numa dimensão de grande repetição temporal e contínua, por milhares de pessoas, você terá uma placa esburacada, uma empresa lucrando e uma possível reação tóxica às pequenas doses de veneno, que sim, se acumulam.
Esse é um convite para uma exercício de "dimensionalizar" as coisas, fazer um movimento empático. Toda vez que você se pegar dizendo "nossa, que besteira", tente fazer uma reflexão simples: se pergunte "isso está acontecendo com que frequência?, "se isso acontecesse o tempo todo quais seriam as consequências negativas a longo prazo?". Duas perguntas simples. Movimento reflexivo para te auxiliar e te livrar de ser mais uma pessoas distraída que contribui para resultados ruins, as vezes sem nem perceber.
Gente, não é "só uma piada". Se a gente visualizar o fato isolado parece bobagem, mas o contexto mostra, é só pensar um pouco, ter mais capacidade de pensamento complexo, holístico, ter mais crítica, mais imaginação, mais subjetividade. E ainda assim, se continuar sendo "bobagem", se pergunte: "isso serve pra que?". Sonho com o mundo em que pessoas possam ser mais sensíveis, prudentes, conscientes e gastar energia para coisas úteis e positivas. Se for machucar, não reproduza. Pare e observe antes. É pedir muito?

Em anexo, a foto da placa de entrada Louvre sendo visto por outro ângulo,enquanto eu fotografava apenas apontando a câmera nas direções usuais, quase perdi o pôr-do-sol que acontecia em minhas costas. 

domingo, 13 de agosto de 2017

Ter a clareza do que não se quer ser

Ao passo em que vamos atingindo a fase adulta, as bifurcações que encontramos no caminho nos fazem ter que escolher por onde ir, e consequentemente onde chegar. Algumas escolhas podem ser feitas de maneira demorada e outras nem tanto. Esse conjunto de decisões vai nos dizendo muito sobre nosso conjunto de valores, quais são as nossas prioridades, quais elementos serão importantes para serem alcançados e medidos na sua régua (individual) do sucesso.

Pois bem, atualmente com 27 anos, terminei a faculdade de Medicina ano passado querendo ser psiquiatra para trabalhar com Saúde Mental (na realidade, era muito mais que querendo, havia uma certeza de que se não fosse psiquiatra não seguiria a carreira médica). Isso aconteceu porque, durante minha formação, fiz um estágio de extensão universitária e viajava para o interior da Bahia com um grupo de colegas e o tutor do programa, um psiquiatra excepcional. Depois de estar perdida achando que seria cirurgiã ou dermatologista, eu finalmente me vi fazendo algo que fazia sentido pra mim. Nessa experiência do estágio nós fazíamos além do atendimento ambulatorial através de consultas clínicas individuais, outras atividades de cuidado como visitas domiciliares, atividades em grupo e capacitação de agentes comunitários de saúde.

Quando eu me formei, percebi que antes dar seguimento e continuar estudando, precisava trabalhar enquanto médica, também chamada como "clínica geral", para ter mais experiência, segurança e desenvoltura no atendimento e convivência com pessoas, coisas que os livros não ensinam. Hoje estou no segundo ano de especialização em Medicina de Família e Comunidade, essa escolha foi recente e não planejada, mas vejo o quanto está sendo fundamental para mim. Eu não desisti de fazer a tal Psiquiatria, mas posterguei esse momento para conseguir não ficar na caixinha do modelo hospitalocêntrico e medicamentoso que as residências andam oferendo como aprendizado prioritário.

Quando me perguntam o que eu vou fazer da vida, eu consigo responder que me imagino sendo plena se eu conseguisse trabalhar como profissional do cuidado com foco em saúde mental, mas atuando na atenção primária, dentro do território e realidade das pessoas, mas também com o pé no ambiente acadêmico sendo professora ou preceptora. Percebi com o tempo que essa seria a fusão de duas prioridades que aprendi a ter por conta dos ensinamentos da minha família: Saúde e Educação. Bem clichê, confesso.

Confesso também que essa clareza de hoje eu tenho após algumas (várias) reflexões, e especialmente por saber exatamente o que eu não quero ser. Segue a lista das coisas que me incomodam e serviram de norteadoras "ao contrário", me ajudando a saber o que não quero fazer:

- Eu não quero trabalhar de forma em que haja uma distância entre mim e as pessoas, sejam pacientes ou colegas de trabalho. Essa verticalização, hierarquia, diferença no tratamento, na verdade me incomoda; 
- Não quero ser uma médica tão especializada que fique a vida trabalhando com um segmento específico, de forma que quando alguém apresente um problema "fora da minha área" eu diga "não é comigo, não posso te ajudar". Na verdade, me incomoda essa segmentação das pessoas em pedaços, e isso inclui avaliar questões de Saúde Mental como se fosse algo separado do corpo físico;
- Não quero ser aquele médico que atua profetizando o que é o melhor pra pessoas, recomendando coisas que nem eu mesma não faço, como se não bastasse a hipocrisia, a ironia de não poder servir de exemplo nem pras próprias sugestões, é estranho, me incomoda;
- Não pretendo cair da loucura de sacrificar a minha própria saúde física e mental por conta de carga horária e condições de trabalho adoecedoras, afinal como poderei cuidar do outro se eu não cuidar de mim?
- Não gosto do funil de acesso que o atendimento privado ou em serviço especializado tem. Tenho de forma clara que uma das coisas mais angustiantes é tentar resolver um problema que deveria ter sido trabalhado desde muito antes, não gosto da sensação de que "era pra ter cuidado disso desde o começo, agora ta bem mais difícil", isso também me incomoda, eu acho acesso oportuno a serviços de saúde algo fundamental
- Outra coisa que me incomoda é o estigma que ainda existe com a palavra "psiquiatra", eu vejo quantas pessoas possivelmente beneficiadas deixam de procurar ajuda com medo de taxações externas, tenho alguns motivos pra querer interferir na saúde das pessoas de maneira integrada, preventivamente, atuando no bem-estar e rotina, sem precisar esperar que as coisas piorem para que me procurem.

Eu tenho noção de que isso aí vai ser bem mais trabalhoso do que se eu seguisse uma carreira médica mais tradicional de "escolhe uma área, monte seu consultório e dê o seu melhor em âmbito individual". O meu melhor eu darei com certeza, mas acho o trabalho em equipe mais potente, o atendimento público mais justo, a atuação em serviços de porta de entrada mais oportuna e a abordagem sem segmentação das pessoas mais lógica e efetiva. Pode ser que nessa luta de querer trabalhar pelo SUS dentro do contexto político atual e contra o modelo hegemônico mais lucrativo me canse ao ponto de eu ter que moldar essas escolhas para poupar a minha saúde mental, quem sabe. Mas pelo menos hoje, enquanto eu ainda tiver vigor e energia, eu vou procurar sempre aproximar minha atuação profissional dos meus princípios pessoais para trabalhar fazendo o que gosto e faz sentido pra mim.




segunda-feira, 15 de junho de 2015

Contabilidades

10 meses morando fora do país, sem dirigir, sem ver televisão, sem sentir cheiro nem gosto de dendê

9 meses falando duas línguas (português e inglês) praticamente na mesma proporção, e tentando aprender uma terceira (francês)

8 meses entendendo que chuva e clima ruim nunca poderão ser motivos pra não cumprir afazeres normalmente e que esforços periódicos e frequentes visando manutenção fazem muita diferença

7 meses sem ir na academia, mas sem ficar sedentária. Procurando mais simétrica sendo e gentil com as articulações, apostando em outras atividades

6 meses de tentativas e persistência na iniciação do yoga na minha rotina e que conheci quem seria minha melhor amiga de nacionalidade diferente da minha

5 meses que passei pela pior fase da minha vida, dentre inverno, frio, solidão, saudade, distância e dúvida do que p* eu estava fazendo da minha vida

4 frequentando cultos aos domingo e estudando o Cristianismo como nunca tinha feito antes

3 meses que já não dou a mínima pra quando está fazendo 10 graus, já misturo ingredientes na cozinha por experiência, voltei a me divertir com cores e dei inicio ao planejamento de projetos paralelos

2 meses que mergulhei sem medo numa história de amor, comecei a fazer capoeira e bati o martelo que não vou parar de dançar mais
E
Um pouco menos de 1 mês trabalhando num laboratório de neurociências e hoje me falta exatamente um mês pra fazer meu camimho de volta pra casa. Posso até continuar exatamente de onde eu parei, mas não será do mesmo modo que eu faria se fosse a mesma pessoa que era antes de viajar.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Mudar ou não, eis a questão.

Hoje uma tia me mandou uma mensagem "o amanhecer é a prova de que sempre haverá uma segunda chance". Chiclê, né. Pois é.

Dizem que intercâmbio é a maior chance de mudança e é mesmo. Mas não é uma opção exclusiva. Tem como mudar "sem sair do lugar porque a mudança vem toda de dentro". Ou clichê, eu sei.

Essa foto de Aberdeen eu tirei quando estava saindo da minha última prova. Pra quem pensou que agora eu estou livre pra relaxar, eu digo: eu mal comecei.


Esse corredor da foto é estreito assim porque essas construções são velhas. De muito antes do Brasil existir. Aqui na Escócia é tão frio que as construções tinham ter que a parede muito grossa e ser muito juntas umas da outras. No fundo, está The Sir Duncan Rice Library, uma biblioteca tão maravilhosa que está em 25° lugar dessa lista.

Depois de ver essa foto eu lembrei de Berlin, Paris, Londres, cidades maravilhosas que igualmente mantém construções históricas, tradições milenares mas são modernas! Como pode isso? Velho e novo ao mesmo tempo?

Do mesmo jeito que pra conjugar um verbo regular você mantém o radical e muda o tema de acordo com a pessoa e o tempo. Do mesmo jeito que para fazer um bolo você precisa de farinha e ovos mas pode mudar o sabor e a cobertura. Do mesmo jeito que as células se dividem e morrem o tempo todo mas o tecido orgânico continua o mesmo.

Do mesmo jeito que você pode ser a mesma pessoa de sempre, em essência, mas sim mudar algumas coisas. E a mudança é uma forma de adaptação. Pode ser adaptação aguda e situacional (como mudar o jeito de falar e vocabulário a depender de com quem você fala) mas também pode ser uma mudança difícil e arrastada como tirar/criar hábitos. E que eu, como futura médica e aspirante a psiquiatra sempre fui muito curiosa sobre esse processo.Um processo penoso, eu sei, mas necessário.

Digo penoso com propriedade porque também tive que mudar e mudei. Já disse "eu mudei" algumas antes inclusive, e percebi que esse processo penoso e necessário é também contínuo. Mas mudei e ao mesmo tempo continuo a mesma. Ainda gosto de dançar, ainda cato coisas da rua que eu acho que ainda servem pra alguma coisa, mesmo que eu não saiba ainda pra que exatamente (é isso mesmo, alguns chamam de catar sucata, eu comecei desde pequena e até faço até hoje). Algumas coisas vão mudar, outras ficam. O que determina é o quanto isso faz bem ou mal a você e quanto faz bem ou mal para os outros.

Mudar e continuar o mesmo. Parece estranho, mas é a vida. Tão irônico quanto achar que pra mudar tem que fazer intercâmbio, sem perceber que, "fazer intercâmbio" é, nada mais que, fazer uma viagem para fora quando na verdade a maior viagem é pra dentro de si.

domingo, 10 de maio de 2015

Sobre papinhas e caquinhas



(Apesar de estar em primeira pessoa, esse texto tem propósito de ser universal e não um relato pessoal. Mesmo que, infelizmente, ele não pode ser aplicado a todas as realidades brasileiras, vale a reflexão sobre os temas.)
 
Marco zero. Você come pelo cordão umbilical de forma contínua, e faz um cocô limpinho na barriga da sua mãe.E então você nasce.
Etapa um: Você uma hipoglicemia básica, pois te tiraram aquela fonte de açúcar "molezinha" e também faz a sua primeira caquinha de verdade que, por sinal, é tão especial que tem até nome: mecônio.
Etapa dois: Você fica irritado e não entende o que está acontecendo, é uma coisa nova: fome. Com o tempo você aprende que manifestar sua irritação chorando vai aparecer um peito com leite quentinho pra você sugar e engolir. Então você fica cheio e satisfeito e faz caquinha ali mesmo, em qualquer lugar, a qualquer hora, com fralda ou sem fralda, alguém vai vir limpar.
Etapa três: Depois de aprender a chorar pra mamar, você começa a perceber que isso não vai ser uma regra imediata. Sua mãe também precisa fazer outras coisas. Nasceram umas coisas estranhas na sua boca e depois você descobre que aquilo branco e duro são os chamados dentes e que agora você vai ter que mastigar antes de engolir! Mais um esforço: tenho que avisar que estou com fome, tenho que esperar e agora vou mastigar. Tudo bem, querem que eu use essa colher, mas eu também vou me divertir, vou melecar tudo e meter a mão aqui e ali, alguém vai vir limpar. Em compensação estão me dizendo que agora eu não posso fazer cocô simplesmente quando eu quero? Como é isso? Segurar? Até achar o que? O lugar certo? Então ta, né, agora eu sei que existe um lugar chamado vaso sanitário e que agora eu só posso fazer la. Mas também é só fazer, depois alguém vem limpar o vaso.
Etapa quatro: Panelas, almoço, frutas com caroço. Eu prefiro essa bolacha que eu só preciso fazer duas coisas: mastigar e engolir. Mas a mamãe disse que tem muita "gordura trans", e seja lá o que for isso, a bolacha é tão mais doce que a uva! E essa uva tem caroço! Dá trabalho. E também estão me dando folhas coloridas e outras coisas que ficam na água quente cozinhando. Mas a batatinha frita de saquinho é crocante e tem brinde dentro! Não entendo porque isso de descascar, lavar, ralar, que trabalho! Mesmo assim eu como, né, já tá aqui na mesa, tudo pronto, eu como, mas eu tiro a cebola, claro, coisa nojenta. Nojento mesmo é passar água no prato, mas eu vou fazer isso agora porque a mamãe disse que se eu deixar o prato sujo a comida endurece e fica mais difícil de tirar depois. Mas as vezes eu não faço isso porque depois alguém vem lavar.
Etapa cinco: Como pode essa aula terminar 12:30? Agora você tem compromissos e horários.  E o que você come e quando você usa o vaso vai começando a ter que se adaptar a uma coisa chamada: rotina. Além disso, você começa a perceber que nem todos os desejos serão realizados, nem de comer o que se quer, nem na quantidade que se quer nem na hora que ser quer. Então você vai se ajustando. "Esse dinheiro pro lanche não é pra comprar porcaria", mainha dizia. Mas churros é tão bom, como pode ser chamado de porcaria. Eu prefiro sorvetes com confetes coloridos e coca-cola, que mesmo sendo preta tem uma propaganda tão legal! Como pode ser algo ruim?
Etapa seis: Minha mãe insiste em me fazer gostar de brócolis, mas eu acho o gosto tão ruim e acho injusto forçar a barra, sabe, agora eu sou adolescente e sei muito bem o que eu quero, e ninguém pode mandar em mim. "Querido diário", mês passado na festinha da Rê um paquera me deu cerveja eu achei tão ruim mas tão ruim, que tive que segurar a careta. Mas meus amigos acham bom então eu comecei a achar também. Estou descobrindo o mundo e sei até que existem outros lugares para se fazer merda além do meu amigo vaso. E todo mundo faz, meus amigos tem histórias legais, faz parte da idade e agora eu sei que dá pra limpar.
Etapa sete: Pronto, agora que eu sei o que eu quero fazer, tô começando a ter autonomia e com isso uma coisa veio junto chamada responsabilidade. Ou seja, eu sei que o que eu faço é culpa minha então eu faço e limpo, faço e limpo, e vou fazendo e vou limpando até que, putz, essa aqui ta dando muito trabalho pra limpar, velho, acho que exagerei, sabe. Então, outra coisa que eu to vendo é que aquilo que meus pais me davam para me proteger agora eu mesmo vou ter que colocar porque as consequências nem sempre são tão simples, me veio, enfim a noção de limite.
Etapa oito: Minha energia não é mais a mesma, sabe. Eu já fiz tanta coisa que agora eu começo a selecionar, né. Já sei o que pode dar merda e já me livro do trabalho que isso poderia me dar se eu fizesse. Se eu faço e eu limpo, eu não escolher o que fazer e começar a fazer de um jeito que não suje tanto, sabe, é uma questão de prudência e equilíbrio. Eu comecei a ver que ter trabalho e cuidado durante a execução pode me ajudar muito no final, eu gasto a energia agora e pra economizar depois.  Já saí de casa e agora eu me viro na comida, compro pizza e sanduiche que alguém já fez pra mim. O dinheiro é meu, mas o trabalho não. E meu amigo vaso, sou eu que limpo agora.
Etapa nove: Não aguento mais comer pizza, já troquei a marca mas esse tomate, sei la, quando eu como a salada de domingo que minha mãe faz na hora é tão melhor. Aí, procurei receitas, baixei aplicativos e até mesmo tirar dúvidas com minha avó no whatsapp ta rolando. Mas veja, quem diria, a cebola que eu separava, hoje tem o cheiro que mais me anima, o cheiro de uma comida que vai começar a ser preparada, hum, picar cebola, refogar cebola, temperar cebola. No começo deu um trabalho, eu chorava (mas era só por causa da cebola, claro) mas minhas espinhas ficaram melhores, e eu comecei a economizar dinheiro, perder peso e ao invés de gastar na rua e comecei a fazer a comida do jeito que eu gosto. Outro dia eu tava pensando que abrir uma lata de refrigerante continua sendo tão mais simples, e ele tem um gosto tão bom, né. Quando eu penso em descascar laranja, cortar laranja, bater laranja no liquidificador e peneirar bagaço, eu lembro daquele anel de metal que libera o gás que faz o som da praticidade, da simplicidade e também da celulite e pré-diabetes.
Etapa dez: Esses verduras estão tão coloridas que dá para fazer um desenho de um rosto, cabelo de brócolis, nariz de azeitona, que engraçado, lembrei de quando minha mãe fazia isso para que eu pudesse gostar de comer coisas saudáveis. Taí, gostei. Quando eu tiver um filho, eu vou preparar tudo do melhor para ele, a começar de agora, já que comendo bem eu vou ter um organismo mais saudável pra quando ele tiver no marco zero e se alimentar pelo meu cordão umbilical.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

Sobre o Brasil, homofobia e a zueira patológica

Há muito tempo eu quero escrever esse texto. Toda vez que pensava em escrever desistia para evitar polêmica em rede social, muito porque eu sei que nem todo mundo entende o que realmente eu quero dizer.

Porém, entretando, contudo, todavia, um canditado à presidência fala o que pensa em rede nacional sem medo da polêmica, sem ponderação quanto a ofender alguém, porque eu haveria de ter receio de dizer o que eu acho? Além disso, morando fora do Brasil a gente observa e compara as pessoas e comportamentos, e assim consegue ter outros referenciais para poder separar: isso é comportamento do ser humano ou isso é comportamento do brasileiro.

Vou dividir o raciocínio em tópicos, é difícil organizar

1. Um adolescente falando sobre bullying no colégio: "Ah, eu também acho bizarro isso de xingar o garoto, as vezes eu sinto até pena. Mas, Raísa, se eu falar que é parar de chamar ele de viado os caras vão falar que to defendendo pq sou viado também, aí sobra pra mim".

Ou seja, é melhor ser algoz, mesmo sem concordar, por receio de sofrer a ofensa que você mesmo está fazendo?

Deve ser por causa daquele ditado "não faça o que você não quer que façam com você". Então, se você resolve evitar e defender é porque você também se atingiu, e não gostaria que acontecesse se fosse com você. Mas se você combate a homofobia é porque você é gay?

Oi, meu nome é Raísa, sou heterossexual desde sempre. Tenho amigos gays, tenho amigas lésbicas, amo todos eles, convivo com eles, e mesmo assim tão perto eu não "me contaminei", e eu vou sim combater a homofobia. Eu me atinjo e me coloco no lugar das pessoas porque eu também sou gente! Eu sinto empatia, eu não olho um gay como se ele fosse diferente de mim, como poderia?

A primeira coisa bizarra que os brasileiros fazem é confundir respeito com concordância, pactuação.

As pessoas são diferentes, fazem coisas diferentes, gostam de coisas diferentes. Eu não concordo que sertanejo seja o melhor estilo de música, mas eu respeito que você ache. Eu não concordo que tomar coca-cola no almoço seja bom mas eu respeito quem ache. Um vegetariano não concorda em comer carne mas respeita quem coma. Respeitar não significa que você faça igual. Se todo mundo entendesse de uma vez isso, o segundo erro que eu vou explicar agora seria menos repercutido.

2. Em 2009, numa aula de Ética da Faculdade de Medicina houve um debate hipotético sobre: se você pudesse evitar que seu filho nascesse gay você evitaria? A melhor frase foi dita pelo professor Cláudio Lorenzo "quem argumenta que não quer ter um filho gay pra evitar que ele sofra, na verdade está querendo evitar seu próprio sofrimento". Essa é a questão da homofobia brasileira. É o egoísmo ao avesso, o coletivismo deturpado. Vou explicar mais.

"Meu filho, o que os meus amigos do trabalho vão falar se souberem que você é viado, eu não vou aguentar".

A segunda coisa mais bizarra: é se importar tanto com a zueira. E a zueira? A zueira não tem fim.

Nessa hora as pessoas se colocam numa posição de se importar excessivamente com o que os pessoas vão achar e deixam de fazer o que seria o melhor pra si e sua família. Qual o sentido disso?

O fato de se importar com a opinião das pessoas é um traço de coletivismo. "Se importar com os outros", isso soa tão bonito. Mas no Brasil esse traço é deturpado pois você tende a querer controlar a vida do outro (e isso é egoísta) por causa da opinião das outras pessoas. Você prefere evitar a zueira da rua do que ver a felicidade de dentro.

3. Não é só com relação à homofobia que esse comportamento traz prejuízos. Depois de participar de um congresso internacional de psiquiatria eu percebi o quão é mais forte o estigma em torno da psiquiatria no Brasil. Só é lembrar da Seleção brasileira negando serviço da psicóloga dizendo "eu não sou maluco, não preciso". Porque as pessoas evitam fazer terapia e quando fazem pedem segredo? Que vergonha é essa de  fazer o que se precisa pra melhorar em algum aspecto e assumir isso? Como pode as pessoas deixarem de fazer o que vai te fazer bem por medo dos comentários de quem nem te conhece?

Por isso que eu chamo esse egoísmo de "ao avesso". Se egoísta em pensar em si, e os brasileiros deixam de fazer o que é melhor pra si também por causa da opinião das outras pessoas, esse egoísmo é "fraco". Você prefere evitar a zueira da rua do que ver a felicidade de dentro.

O que eu acho mais engraçado disso tudo é que comparando com o perfil dos europeus, o coletivismo dertupado e egoísmo ao avesso do Brasil fica mais evidente e mais sem sentido.

Se nos preocupamos com o que as pessoas vão achar, e zuar, porque eu nunca vi ninguém dizer "fure a fila não, vão achar o que de você"? Ou "não jogue esse lixo no chão, as pessoas vão comentar". Com relação a esse tipo de comportamento não há coletivismo, e o egoísmo é do tipo "eu faço o que eu quero". Pura ilusão. Não faz o que quer, porque já deixou de usar uma roupa com medo de zueira, já deixou de recusar um convite de festa com medo de zueira.

"Brasil é um país de todos". Todo mundo querendo tomar conta da vida do outro. Mas ao mesmo tempo o Brasil é terra de ninguém pois todo mundo "faz o que quer". Bagunça e desordena, se acha livre por viver fora das regras, mas abre mão do que realmente importa vive preso dentro das jaulas da zueira.

domingo, 28 de setembro de 2014

Vivendo na Escócia (em tópicos)

ara meus amigos, familiares e curiosos :)
 
- Olhar a temperatura antes de escolher a roupa (puxa a cortina pra olhar a cor do céu, abre a janela e coloca a mão pra fora, observa se o vento está balançado as folhas e tal)

- Confundir a mente e sentir frio e calor ao mesmo tempo! (Como é isso? andar no frio e de casaco, dar uma acelerada no passo, o vento deixa o rosto e mão geladas mas dentro do casaco fica quente e você sua, sim, você sua no frio)

- "Eita segura essa moeda que vale quase oito reais" (a libra custa mais que quatro reais em algumas casas de câmbio. Outro coisa curiosa é que os tamanhos das moedas são sem lógica nenhum, a de dois "centavos" (pence) é maior que a de vinte, a de 50 é maior que a de 1 pound, até hoje tento entender isso, haha)

- Sim, eu já vi um homem de saia andando na rua de boa. Era um senhor bem fofinho, e não, eu não perguntei nem conferir se ele estava usado de maneira tradicional (sem cueca =X)

- jogar papel na privada é clássico, e cá pra nós, bem mais higienico.

- Comer feijão no café de manhã. E é gostoso, tem gosto de feijão com ketchup. (quem diz que é ruim é porque compara com nosso feijão, mas gente, ai é covardia, haha)

- Beber água da pia, tomar água durante o banho, se queimar com a temperatura da água.

- Chegar na hora? não mesmo, chegar antes da hora! E pedir desculpas o tempo todo e por tudo, até se alguém pisar no seu pé por exemplo, então é comum aquele "sorry" em conjunto depois um riso :)

- Aula meio-dia, sim, pq aqui meio-dia é o mesmo que 10:30 ou 15:15, não existe hora de almoço, não existe almoço. Por isso mesmo almoço em inglês é "lunch", leve sua fruta não, fique ai

- Internet em casa, ma sala de aula, na biblioteca, nas lojas, nos restaurantes e nos ônibus, eu disse ônibus. É tanto que até hoje uso meu chip do Brasil só nos wifii free =O

- A sacola do mercado é paga e tem de vários tipos. Mas a idéia é comprar uma vez, levar a sacola de casa e usar a mesma, ou então colocar as coisas na mochila, mas va passando as coisas, embalando e pagando ao mesmo tempo e se você demorar fazem cara feia, aqui é tudo rápido. E se o mercado não tem embalador nem gasta com tanta sacola não precisa aumentar tanto o preço dos produtos, pra compensar. (Sem contar com os lugares onde vc mesmo passa os produtos na máquina e coloca seu dinheiro, pega seu troco. E não tem "fiscal", e funciona!)

- Na cozinha tem o lixo comum, uma sacola pra materiais descatárveis (que você lava antes de "jogar fora") e outra pra matéria orgânica.

- Já me acostumei a ir no mercado e ver o cachorro de buenas esperado o dono, tão sério quanto o dono deve ser.

- Os alarmes de incêndio são testados com certa frequência (porque não precisa tragédia acontecer pra ver se ta tudo ok),  nos lugares de alto fluxo de pessoas tem um desfibrilador de fácil uso disponível (usado pra converter o ritmo cardíaco em casos de infarto) e todas as tomadas têm um interruptor que você desliga se quiser deixar o carrgador la pra sempre (o que não é recomendado nas tomadas comuns)

- Todas as portas pelo menos fecham sozinhas, algumas também abrem sozinha, mas fechar todas fecham, a gente precisa fazer um calço de porta pra deixar o ar circular um pouco.

- Cookies deliciosos e muito baratos (ou seja, é bom mesmo fazer a matrícula da academia), chocolate frito (isso mesmo) e uma bebida chamada "Iron Bru" que tem gosto de chiclete e é mais vendida do que coca-cola!

- Meu cartão da universidade eu uso pra pegar onibus de graça entre os campus da universidade (por sinal, os pagos são muito caros), pra entrar em casa (a porta não é de chave), pra entrar na biblioteca, para pegar os livros, para entrar na academia e também na máquina de xerox pra imprimir os arquivos que eu já mandei de casa =O

- Fora isso oa carros usam a pista da esquerda, o volante fica do lado direito do carro e você tem que passar a marcha com a mão esquerda (eu não dirigi aqui pra saber mas deve ser bem estranho) e o sotaque é surreal. Entender um escocês falar já é tenso, mas com o tempo vc também tem que treinar entender um escocês falando rápido num lugar baruhento, roucoe usando gíria, hahaha, "Sorry? Could you repeat please? de preferencia sem o ovo na boa =X haha"

Algumas coisas são bem estranhas (como o penteado das mulheres daqui) outras são bem lógicas. Devo ter esquecido algumas coisas mas as mais importantes são essas mesmo, é tudo novo e no mínimo interessante =*

domingo, 10 de agosto de 2014

Aos pais, meus parabéns e meus pêsames

E também meu muito obrigada, meu "boa sorte", meus sentimentos, meu alô, meu abraço para mandar força, meu sorriso de admiração

Eu queria mandar um beijo para aqueles que ainda vão ser pais, que estão sentindo o bebê chutar a barriga que não é sua, enchendo a casa de fralda e de expectativas, boa sorte, curta cada segundo nesse início de jornada

mandar um abraço apertado para os pais dos bebês prematuros que aprenderam, bem antes do tempo, a lutar junto, a dar um suporte imensurável, a ter mais noção do que é ser delicado e precisar de alguém, com todas as letras do verbo precisar

Queria dizer parabéns aos pais que sabem dar carinho, mas também dão exemplo e sabem dizer não. Nós sabemos que existem tantos tigres por aí, e mesmo dentro de jaulas podem arrancar braços. Prudência é algo a ser ensinado, acidentes acontecem, mas alguns com certeza são evitáveis

Dar também meu apoio sincero aos pais que acordaram com a notícia de que a vida inverteu a ordem do tempo e souberam de falecimentos precoces, paroxísticos, lamentáveis, a gente nunca sabe quando esse tipo coisa pode acontecer, vamos viver cada dia, sem deixar buracos ou adiamentos

Dar um alô aos pais que não deixaram de amar seus filhos e filhas mesmo quando perceberam que eles eram diferentes e amam pessoas do mesmo sexo, e preferiram se dedicar a entender e contribuir para felicidade de quem importa de verdade, ao invés de se importarem com quem comenta com a voz intolerante da maldade

Mandar um sorriso de orgulho para os jovens que ainda não são pais, mas lembram de jogar fora o cocô do gato,
ou já escolheram o nome dos futuros filhos mesmo sem saber ainda com quem vão casar,
ou que fazem planos de educação e mesmo assim não esquecem do preservativo
pois sabem muito bem que filho é coisa séria, e o melhor para eles é virem na melhor hora
mas também meus aplausos para os pais que conseguem fazer a melhor hora acontecer e mudam suas vidas para ajustar o mundo e cuidar dos filhos que vieram, dando o que um pai de verdade deve oferecer

Quero mandar um beijo na testa bem carinhoso das mães que criaram seus filhos na ausência do pai, seja por falecimento ou abandono, e fizeram ao mesmo tempo dois papéis difíceis de forma suficiente e conseguiram carregar uma família

Escrevo isso para falar de amor, de laço, de cuidado, de orgulho. Sei o quanto é importante o carinho e o suporte, toda vez que eu escrevo no prontuário de alguém "suporte familiar adequado".

Pais amem seus filhos, filhos retribuam o amor dos seus pais. Conversem mais, demonstrem mais, tentem, falem, vejam fotos velhas, se abracem, se aproveitem. Família a gente não escolhe, família a gente vive, convive, aprende a amar e cresce junto.

Feliz dia dos pais.

Comprimidos azuis

Um paciente compensado, suspendeu seu neuroléptico e ficou estável sem medicações. Feliz, sorriu, devolveu a cartela durante a consulta e disse: trouxe pra farmácia, vai que tem alguém precisando. Achei lindo. Tudo, a melhora do quadro, o sorriso e a empatia com o próximo. Quando eu me lembrei de devolver, a moça da farmácia havia ido, coloquei na mochila e lá ficou por algum tempo. Sempre que me lembrava que havia esquecido, a frase reverberava em minha cabeça “vai que tem alguém precisando”.

A psiquiatria é uma área médica fantástica na minha opinião. É engraçado a reação das pessoas quando eu digo que vou ser psiquiatra. “Poxa, que coragem”. Eu também acho. Tem muita coisa triste no mundo da loucura, é verdade. Mas ele é amplo, e psiquiatra não é “médico de louco”, não apenas. É médico dos bulímicos, dos ansiosos, dos insones, dos dementes, enfim. Ver um paciente melhorar é simplesmente impagável. Tratar de um paciente que não melhora (ainda) é um desafio.

Dona M, setenta e três anos. Todos os dias ela aparece no consultório com a mesma blusa azul. Ela não é minha paciente, o neto dela que é, 11 anos de idade. Digo idade na certidão, pois no desenvolvimento é um tanto mais novo. Dona M. é dona das frases que mais me desestabilizaram em dois anos de estágio em psiquiatria. Mas não eram frases de lamentações ou queixas das situações sem jeito. Era impressionantemente o contrário. Ela me dizia coisas extremamente tristes num tom conformado, quiçá jocoso, e ria, sempre terminando com uma frase de auto-acalanto.

Ela dizia assim: “minha filha também não é muito certa. Eu já disse pra ela procurar um médico, mas se irrita, diz que não é doida, quebra tudo e briga comigo. Já tentei de tudo. Quando E. nasceu, eu agradeci a Deus, achando que eu tinha ganhado um neto que fosse me ajudar a dar conta da filha que tenho. Mas ele nasceu pior.” E dava risada. “Mas não tem jeito, família é família, eu cuido dele como filho e oro todos os dias por ele”. O garoto era epiléptico e tenha retardo mental moderado com um grau de irritabilidade importante; baixo limiar de frustração.

Um certo mês a gestão nos fez o favor de deixar faltar medicamento. Custa menos de cinquenta centavos cada cartela de comprimido. Para dona M., me mostrou um corte na sobrancelha de uma pedrada que levou do neto. Quando ela me contou desesperada que ele estava muito pior eu lembrei do “massacre de Realengo”.  Um cara entra numa escola armado e mata 12 crianças. Isso não foi nos Estados Unidos, foi no Rio de Janeiro. Me lembro de um professor meu dizendo “o governo não investe em saúde mental, porque os pacientes de transtorno mental são até hoje rejeitados e excluídos. Mas a falta de investimento neles traz um prejuízo muito maior quando eles estão descompensados”. (!)

No meio da preocupação me lembrei que tinha comprimidos azuis na minha mochila, daquele paciente exemplar que havia devolvido. Ela dizia “todos meus irmãos já se foram e eu ainda estou aqui, as vezes me pergunto o porquê, se era melhor ficar aqui mesmo, sabe?”. Uma senhora com seus setenta anos e sua blusa azul de sempre, corcunda, cansada, dando conta sozinha de um pré-adolescente agressivo, sem poder se defender. Quando a gente envelhece e cansa, a gente precisa de quem cuide da gente. Ela poderia resmungar, lamentar, ela tem motivos pra reclamar da vida todos os dias antes de dormir e ao acordar. Ela dorme com medo e acorda com coragem, ela tinha respaldo para ser triste. Mas quando viu os comprimidos azuis que eu tinha ela sorriu muito, agradeceu e disse “ta vendo como a vida é boa?”.

Como não se apaixonar?