quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Onirismo em gota d'água

Não havia chão.
Não sentia a gravidade em obediência, era mínima e equivocada a idéia de se achar o norte, não havia referência de luz, eu não sabia se meus olhos estavam abertos ou não.
Breu completo, de temperatura fixa e alienável, orientação espacial nula, a percepção do ambiente hipnotizante.
A primeira tentativa de dedução de onde eu estava me veio pela ausência do peso dos meus cabelos, por sentí-los dançar em meu rosto com uma velocidade sem pudor.
A propiocepção consciente do meu corpo se deu de maneira gradativa, com membros em coreografia completamente aleatória, eu sentia, sem alguma certeza, um véu de espessura milimétrica que me envolvia sem forma definida, moldando-se ao seguir em cada ponto movimentos entre meu corpo e o fluxo lento daquela imensidão de água.

Água, tanta água, água de quantidade desmedida, minha imaginação impossibilitada de delimitá-la em números ou em idéia de imensidão. Era noite, isso eu sabia, não era possível que estivesse tão fundo.
Minha pele embebida pela diafaneidade ímpar, meu frio era indubtavelmente particular, eu percebia plena solidão.
Me afogava e estava em casa, engolia e transpirava, existia ali um reconhecimento além do plano da razão, uma propriedade intrínseca do meu subconsciente.
Haveria eu mergulhado em meu próprio âmago, meu dentro, eu fora, entrando, no gerúndio, bebendo da minha identidade, preenchendo minhas cavidades, meus eus me circulavam usando a correnteza, as ondas diziam me lavar por inteira, eu me levava entre as várias dimensões, num balanço, ida e volta, mera e pura contradição, oscilava meu humor como um pêndulo e cada gole eu me convertia no mais casto paradoxo de essência impertubável.
Era veneno e antídoto, aquele líquido que ao mesmo tempo me embebedava, me preenchia do mais alto nível de compreensão de mim.

O movimento ganhou maior grau de amplitude, percebia de dentro pra fora, como uma criança em balanço com velocidade.
Apesar de não ouvir e não respirar, nunca tinha me sentido tão viva.
As respostas me vieram em falas, em aspas, em perguntas, 'sabe como se atravessa essa imensidão? Não se guarda força para voltar'.
Força, de onde vem a força que me move, o que fazer se meio do trajeto estancar por poupar energia, quem me garante em que distância se está do fim, seria o medo do que está além maior do que a vontade de se afogar aqui, bem ali.
Essa força vem do além, do aquém, do nada, desse nado, e o tudo se vai cada vez mais fundo, assim tão perto. Me diz onde, pra onde, quem, o que seria esse oceano, essa infinitude, isso sou eu, meu vão, meu vazio preenchido, meu mundo, meus sentidos, meus sinais vitais.

No meio onde a vida começa voltei para a minha formação, assisti o dilúvio eterno que me leva, vi com os olhos cegos a genuína excelsitude de minha alma.
Permeando os tempos que vivi, me vi me procurando em espaços vis, indo longe pra me buscar, se mesmo nos espelhos virgens a refração é ilusória em olhos abertos, o meu travesseiro foi o portal para minha imensidão, me encontrei ao perder dentro de mim, meus sonhos. Eu sei que nadei na minha própria existência.


quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Alizarin Crimson

Último dia de férias, a pouco voltaria a minha rotina de estudante de medicina. Juro que gastei um certo tempo nesta frase tentando encaixar um adjetivo entre 'minha' e 'rotina' mas não consegui escolhê-lo. Tentativas de explicar essa fatalidade seriam assuntos de textos que preencheriam todos os dias do blog até o fim do ano. Longa história. Pois bem, não tão longa era a minha tarde do último dia de férias. Era uma sexta-feira, eu tinha esquematizado os lugares pelos quais passaria, a ordem e o horário que gastaria em cada um, e enfim chegou a vez de passar na lojinha do fim do corredor do Pituba Parque Center, que, por sinal, fica no Itaigara e não na Pituba. Vai entender.

Telas de todos os formatos e tamanhos, pincéis para todos os gostos e técnicas e tintas, muitas tintas, de todos os tipos e tonalidades, dentre as quais meus olhos sempre se perdem embasbacados. Nunca gasto tanto tempo pra escolher algo como gasto pra escolher cores. São tantas, não sei se quero todas, não se quero escolher uma que seja magna da minha idéia, não sei, não sei, a moça deve ter estranhado quanto tempo eu gastei ali em pé, abrindo e fechando cada tubo. Acreditem; a cor da embalagem não é a cor real da tinta e ainda a cor da tinta no tubo não é a cor real da tinta na tela. Tenhamos cuidado com esse tipo de ilusão de óptica, aprendi quando quando me quebrei ao comprar um livro pela capa, ao tentar decifrar pessoas pela aparência, perfumes pelo frasco, comida pelo aspecto, casas pela sacada, enfim. Chega de clichês.

Bom, para acabar a dúvida delirante tentei direcionar as cores pela idéia que eu tinha em mente. Era agosto e eu pretendia pintar um quadro pro dia dos pais. Precisava basicamente de branco, verde e azul, faixas diferentes que deveriam preencher em consonância as cores que já tinha em casa. Não vou estender sobre o quadro, a história dele é também longa, quem sabe em outra oportunidade, quando meus ponteiros me permitirem. Pois bem, mais uma vez minha introdução se estende mais do que eu previa. Para o título não ficar tão distante, eu digo que, foi escolhendo as tintas verdes e azuis para o quadro do meu pai que eu não pude, nem que tivesse toda a força divida controladora de impulsos, deixar de me apaixonar 'irreversivelmente' pelo carmim de alizarina. Que cor magnífica. Infelizmente, mais uma vez reconheço minha humilde não-capacidade de ao menos tentar descrevê-la. Está acima do plano metafísico de compreensão, só receptores oculares poderiam decifrá-la e causar sensações intrínsecas a esse tom de vermelho tão peculiar.

Uma cor. Como pode, é só uma cor. Passei o caminho a almejar a hora de chegar em casa e poder espalhá-la com meus próprios dedos. Dito e feito. Quando o fiz, aconteceu comigo o mesmo que aconteceu com Bentinho ao pentear os cabelos Capitu, tenho que me submeter a usar as palavras de Assis ao invés de criar outra definição já que, creio eu, foi a mesma sensação. 'Quantos minutos gastamos naquele jogo? Só os relógios do céu terão marcado esse tempo infinito e breve'. O tempo parou. Ainda não sei a média da velocidade sináptica normal de uma pessoa mas tenho certeza que durante aquele instante minha cabeça funcionou de um modo muito particular.

Tudo culpa do vermelho. Entre meus dedos eu olhava aquele borrão de tinta e ele me esclareceu dúvidas antiguíssimas, algumas que eu já declarava mortas e só fiz ratificar, e outras que eu nunca tinha imaginado em responder. Aquela cor me reascendeu lembranças, me causou sensações nunca antes sentidas, me fez recomeçar um questionário que eu tinha começado desde muito criancinha. Tudo começou quando eu percebi o porquê de os desenhos dos meus colegas de alfa eram tão estranhos. Direção do risco, intensidade da força no lápis e especialmente o balanço de cores. Eles erraram especialmente no balanço de cores e ficava estranho, de verdade. Deveria haver um equilíbrio entre as cores primárias, azul, amarelo, vermelho. Lembro muito bem que meu questionamento mor surgiu de uma figura, a foto de uma ilha, onde eu vi, o azul do mar e do céu, o verde da mata e o amarelo da areia. Parecia até com a explicação das cores da bandeira do Brasil. Vertendo pro meu catolicismo distorcido, pensei no mundo como obra de Deus, o mundo como a maior das criações, a arte inquestionável, a natureza como única fonte perfeição. Eu procurei o equilíbrio das cores por uma visão do céu, procurei, procurei e nunca conseguia me responder: mas onde está o vermelho?

Onde, onde, onde eu acharia o vermelho na proporção do azul oceânico, do verde continental, do amarelo solar? Onde, onde, onde eu me perguntava. A tinta nos meus dedos me fez pensar no clipe que vi do O Rappa que tinha bonequinhos morrendo da guerra de Canudos. Não me esqueço do clipe porque de cada boneco saia uma quantidade absurdamente desproporcional de sangue que se espalhava pintando tudo, pintando tudo. Imaginei uma guerra na Antiguidade Clássica onde morriam 65482382364 homens num espaço em céu aberto e se cada um tivesse em si a mesma quantidade absurda de tinta. Era o equilíbrio das cores.

Onde mais estaria o vermelho senão em toda a História acompanhando a humanidade, ardendo no calor das fogueiras pré-históricas, embebedando lábios em vinhos gregos, queimando a dor de pecadores, vestindo do mais alto clero com o sangue de cristo, alimentando a paixão insana dos amantes proibidos, alertando em frascos de venenos mortais, pintando os índios em rituais, valorizando meu país em pau brasil, rasgando o mundo com idéias socialistas, e hoje, em batons de prostitutas, nas placas de promoção, nos faróis de freio, na farda dos caixas de supermercado, no tapete do meu prédio, nos botões do elevador, em meus dedos.

Meu dedos vermelhos me lembraram quando numa igreja ao ver o vermelho numa cruz, me perguntei o porquê, quando sofri de amor, me perguntando se existia dor maior, quando eu tentei buscar a lógica de se derrubar uma floresta pra se tinturar roupas, quando me via maravilhada pelas idéias de socialistas, me perguntando porque o mundo é do jeito que é, quando assisti minha primeira cirurgia e consegui responder sem mais nenhum interstício de dúvidas a pergunta do 'onde está o vermelho' com a frase reverberante 'está no sangue, no sangue'.
O simbolismo do vermelho atravessa minhas idéias mais do que eu imaginava, o vermelho está em tudo que me fez crescer, está correndo agora dentro de mim, talvez eu seja o vermelho e se eu pudesse batizá-lo, o sobrenome adequado seria 'Vivo' e não Dourado.

domingo, 31 de maio de 2009

O fotógrafo

Em 2005, eu estava no primeiro ano do ensino médio, em Itabuna. Por sorte minha ainda existia aula de artes e professores aptos a dar aula de artes - que não apenas ensinam a História e os grandes nomes, mas sabem explorar a sensibilidade e criatividade de cada um. Houve um dia em que a professora chegou com um pedaço de papel amarelo, quadrado e pequeno, que cabia na palma da mão. Era um trecho de uma poesia, por sinal, de Manoel de Barros. Eu não me prendi ao nome de quem o escreveu mas guardei depois da atividade. Anos depois, quando fui fazer vestibular e conheci 'O livro das ignoranças', pelo qual eu me apaixonei, eu me lembrei daquele papel amarelo e percebi que os dois pertenciam ao mesmo autor. Enfim. Não comecei esse texto pra falar de Manoel, é que sempre me excedo em introduções.

Bom, o papel amarelo dizia assim:

"O Fotógrafo

Difícil fotografar o silêncio. Entretanto eu tentei...
Tinha um perfume de jasmim no beiral de um sobrado.
Fotografei o perfume.
Vi uma lesma pregada na existência mais do que na pedra.
Fotografei a existência dela.
Vi ainda um azul-perdão no olho de um mendigo.
Fotografei o perdão.
Olhei uma paisagem velha a desabar sobre uma casa.
Fotografei o sobre.
Foi difícil fotografar o sobre.
Manoel de Barros"

A atividade consistia em tentar fazer uma montagem, usando as revistas velhas e picotáveis, pra representar o silêncio, o perfume, a existência, o perdão e o sobre. Aquilo era muito difícil, todo mundo só tinha achado os frascos de perfume em propagandas. Eu perguntei se podia desenhar, e desenhei. Foi mais fácil, mas não deixou de ser difícil e a professora gostou.

E foi lembrando desse episódio que comecei a pensar mais profundamente em fotografia. Pelo meu cálculo estimado 1874683 zilhões de fotos são tiradas por dia. "chega mais um pouquinho pro... aí! tá ótimo, click! Pronto... ficou jóia".

Eu sempre gostei de foto, a melhor parte era 'olha o passarinho', mesmo sem passarinho nenhum. A não ser que eles ficassem dentro do seu olho depois dos flsahes de antigamente. Mas eu gostava mesmo era de vê-las, de perguntar pra minha mãe 'quem é essa do seu lado?' e ela respondia me contando histórias embutidas naquela imagem. O que eu mais gosto das fotos é seu resgate, sua atemporalidade.

Nos tempo antigos, o mais talentosos pintores faziam de seus dedos e destreza ferramentas intermediárias entre tintas e tela branca. Eram contratados em sua arte perfeccionista pra reproduzir a realidade e deixar registrado os perfis dos homens e mulheres 'mais importantes' dos tempos, sem deixar passar nenhum detalhe de exibição em ouro, pedras reluzentes, veludos, cedas e poder. E foi assim com todas as artes; pintar, esculpir, escrever, artifícios que atravessam o que talvez seja a única coisa que o homem nunca vai conseguir dominar: o tempo.

E o tempo passou. Hoje não se fabricam mais filmes de 36 poses, não é preciso mandar revelar para ver como ficou, só é preciso um dedo. É pixel que não acaba mais, todos os tipos de adaptações de foco, contraste de luz, nitidez, cores, captação de detalhes, tudo, tudo isso a máquina faz. A Arte de reproduzir a realidade se tornou simples, prática e caiu na mão do popular, 10 vezes no cartão e não precisa ter computador.

No meio de tantas facilidades, o raro da fotografia deixou de ficar no depois, no resultado, na imagem em si. As milhões de possibilidades fizeram com que os olhares atentos se voltassem mais para as peculiaridades das coisas, no sentido delas, no porquê de fotografá-las. Entretanto, o culto ao belo ainda é subtópico da ideologia vigente, e o mais frequente é querer guardar pra si o que se viu de belo, de encantador. O caso é que as pessoas armadas com suas câmeras fotográficas, miram e congelam o previsível, o que é confortável aos olhos, o que é exuberante ao senso comum.

Ao produzir uma bela fotografia quando se tem um estúdio, com luzes minuciosamente posicionadas, mulheres maquiadas, com seus cabelos ao ventilador ou quando se está em um lugar bonito, com cores vivas e clima estupendo, o complicado é resgatado enquanto quanto à técnica, na dificuldade que se tem em buscar a perfeição. Porém, uma fotografia projetada não revelará através de lentes nada mais do que os olhos nus já vêem, o que é convencionalmente belo.

O 'quê' de um foto é o que ela quer mostrar. É mais do que achar o melhor ângulo de uma praia e fazer propaganda de turismo. É muito mais do que exibir um produto, convencer pelos olhos, atrair pela superfície, é mais do que ter habilidades em se fazer montagens artificiais. A poesia de uma fotografia está no que o fotógrafo quer dizer quando a tira. Fotografar é mais que revelar imagens, é deixar exposto um ponto de vista, um jeito de olhar o mundo, um estilo.

A arte do fotografia está em conseguir mostrar o belo nos caminhos de rotina para as pessoas que sempre por ali passam mas não o enxergam. É conseguir mostrar o imperceptível, o camuflado, é exibir as minudências que o tempo todo são ignoradas. É propor um novo sentimento só em mudar de ângulo, e causar estranhamento mesmo mostrando clichês. Emissão de detalhes, exploração de cores, jogo de sombras, movimento estático, e o abstrato. Excepcionalmente o abstrato, bem como Manoel me ensinou.

O fotógrafo sabe que o que se quer mostrar não deve vir ao centro. Sabe que o preto e branco valoriza o sentimento, sabe que o melhor estúdio é o céu aberto e a melhor edição é pegar os raios de quatro e cinquenta da tarde. Sabe que as melhores fotos são as não avisadas. Sabe que não é preciso correr atrás das cores, as melhores são as mais invasivas. O bom fotógrafo sabe que em suas fotos se tem cheiro, se tem sons, sabores e emoções. Sabe do poder que uma foto tem de resgatar lembranças, atiçar saudades, derrubar lágrimas e contar, dizer, fazer sobrancelhas se juntarem, cantos de boca subirem.

O bom fotógrafo sabe e quer deixar guardado tudo aquilo que lhe causou estranhamento e sensações diversas, ele se alimenta de reminiscências e vive em dar de presente, a tudo que um dia o cativou, uma prova de amor, o mais divino e sagrado presente que a humanidade anseia: a imortalidade.

domingo, 24 de maio de 2009

Compilação Vanessa Voz de Veludo

Preparei a nossa casa chame alguém para um café
mas quando acendo o fogo, parece brincadeirinha, pega-pega 
dizia a todo momento, fique em casa, não tome vento 
e você abre a porta e vai para o asfalto
diz que o que a gente precisa é tomar um banho de chuva
e um frio que suplica um aconchego 

Neste mundo de tantos anos entre tantos outros 
quem irá nos porteger? 
desde essa desilusão eu me desiludi 
ouvindo o mau tom do alheio 
como uma faca cortando as etapas 
e nosso sonho se perdeu no fio da vida 
as flores que manda são fato do nosso cuidado e entrega
nossa graça e vontade derretem na chuva 
nossos olhos são dengosos demais 

havia uma beleza ali, ou era criatividade minha?
cores, tantas cores, tais belezas, foram-se
pírincipe sem um tostão  
e então, o pôr-do-sol invade o chão do apartamento 
torna a gente banca de flores
reconhecendo no mundo o que há em si 
vou ver que tudo pode retroceder
não vou mais querer ninguém, agora que sei quem me faz bem

vamos seguindo acordando cedo 
eu só quero cantar, gozar e gastar da vida
amanhã é tarde demais pra quem não tem a eternidade 
o tempo pirraça. Viva, tenha
case-se comigo antes que amanheça
quero dançar com vo

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Relatividade

Nenhuma dúvida é passível de ser suprimida, dúvidas nascem para ser esclarecidas, nascem do escuro, de algo que pra alguém ainda é confuso, dúbio, e isso pode causar entraves na ponte entre o dito e o entendido.
Nenhuma pergunta pode ser classificada como inútil,  frases com tons de interrogação são ferramentas pra se tentar descobrir ou confirmar o que se percebe, arrancar o que se pensa com palavras, mesmo que essa luta desleal não consiga alinhar percepção com expressão, 'um descompasso infeliz e inevitável, mas necessário'.
Nenhuma hipótese pode ser ignorada, já que não existe verdade absoluta e somos meros mortais que por mais que pensemos durante séculos, sempre chegaremos à conclusão de que não sabemos nada.
Nenhuma informação pode ser negligenciada, descartada ou classificada como vã, pois toda e qualquer tipo de informação um dia servirá pra algum esclarecimento. E quanto às repetidas, a atenção deve ser voltada para a quantidade de vezes que é dita, isso significa raio de dissipação. Clichês não são menos importantes, um dia foram esclarecedores para alguém quando pela primeira vez foram ditos.
Nenhuma palavra pode ser subestimadas, textos não devem ser grifados. Palavras soltas não têm sentido e o contexto é feito pela combinação e coesão, nenhuma é mais importante que outra, todas são lidas e exercem seu papel para a compreensão. Resumos são descarga de detalhes.
Nenhum tipo de matéria pode ser mais valioso por sua função/praticidade do que outro, tudo depende de posição em relação a um referencial, para além de espaço físico, e valor agregado enquanto simbologia, história e significado.
Nenhum ofício pode ser desconsiderado enquanto à sua contribuição diante do equilíbrio e manutenção do estado estacionário dinâmico que rege trnasformações contínuas, fluxos permanentes e ciclos constantes que dizem que o mundo é mundo.
Nenhuma cor pode ser rejeitada, nenhum sabor pode ser avaliado quanto bom ou ruim, nenhum som pode ser calado por interferências destrutivas, nenhuma dança é motivo de desconforto, nenhuma cultura pesa mais numa balança de riqueza, beleza e encatamento que outra.
Nenhum ser merece ser posicionado diante uma hierarquia cujos critérios de classificação não condizem com seus preceitos, doutrina e entendimento do amor.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Pontuando

Nesse mundo de tantos anos, entre tantos outros, que sorte a nossa.
Esses outros de tantos mundos, entre tantos anos, mas que sorte, hein.
Nesses anos de tantos outros, entre os mundos, que sorte é a nossa.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Sentar-se de costas pra janela

Dis.tra.ir vtd 1. Desviar, afastar (o pensamento, o espírito); 2. tornar desatento, negligente; 3. divertir, recrear; 4. fazer esquecer; vp 5. descuidar-se, esquecer-se, desviar-se; 6. divertir-se.

Bom, eu me divirto com pessoas desatentas. 

Aliás, tenho em mim uma distração de prestar atenção - permitam-me o trocadilho - em pessoas que desviaram seus pensamentos por algum instante, e isso é divertido. Esse texto começa assim, e eu juro que não tinha intenção de brincar esse jogo de semântica. Digo que eu, em estado de desvio, afasto de mim pensamentos intrínsecos e pouso a minha atenção em observar, pessoas, gestos, falas, expressões, situações, que nascem do descuido, que são comuns e nem por isso pouco simbólicas, que são simples e nem por isso insignificantes.

Por isso, gosto de salas de espera, filas, engarrafamentos, praça de alimentação e do percurso das viagens. São ocasiões que dividem o antes e depois das atividades, são o meio termo, o intervalo, a pausa do 'piloto automático da rotina'. É como se nessas situações, o espírito da gente pudesse falar por si só, é a oportunidade de as vontades saírem sem passar por processos seletivos, como se os olhares perdidos fossem o estado de transparência. Uma pessoa distraída tem uma sintonia mais livre, não se policia, não pára pra pensar se tem alguém reparando nela. E é assim que as pessoas se mostram; no desvio, no descuido, na distração.

Então. Foi enquanto eu estava praticando a arte de esperar que uma menininha fisgou minha atenção. E se a distração ativa a sinceridade das pessoas, imaginem que esse efeito é mais aguçado e mais frequente em crianças. Não me lembro quantos anos ela aparentava ter, que roupa usava, o que fazia antes que eu a observasse. Me lembro que ela estava de frente a uma daquelas máquinas típicas de área de lazer de lugares públicos, onde põe-se uma moeda e ganha-se uma bolinha de cor muito forte, não sei que material é aquele, mas sei que ela pula muito alto e some com facilidade. Parecia uma cerimônia para um momento de glória, ela versus a máquina, e sua arma, uma moeda. Assim que ela colocou a moeda, percebeu que a saída da bola ficava muito abaixo do buraco-para-moedas e agaixou. A bolinha não estava lá de imediato, estava descendo, assim no gerúndio, deslizando, fazendo um caminho em espiral pelo ventre da máquina transparente.

Pela expressão do rosto dela aquilo era quase mágica, era algo muito grandioso e lindo. Levantou embasbacada e grudou na perna do pai dizendo: olhe! Ele, muito ocupado ao conversar com alguém que eu não me lembro, não ouviu, não olhou, não virou, não se mexeu. Ela puxou a calça e chamou mais uma vez e depois virou pra máquina. A bolinha já estava lá no seu lugar de saída, pronta pra se desprender de seu bando e fazer a felicidade de uma criança, quicando, quicando até sumir. Eu não sei descrever a expressão do rosto dela por ter perdido o espetáculo que ela mesmo desencadeou. Não tenho palavras pra isso, sou pobre. Se servir uma conclusão, digo que aquilo me fez lembrar de quantas vezes viramos pro lado de fora da janela, pra chamar alguém, mostrar o que se passa aqui dentro, e assim de costas, deixamos de ver e viver o que para alguns pode ser uma bobagem descosiderável mas para nós é algo altivo e estupidamente inefável.


terça-feira, 7 de abril de 2009

O passageiro.

Quente, muito quente, em pé, esperar, olhar atenta, ouvir a música, cumprimentar conhecidos, sorrir. Lento, tá demorando, esse ônibus que não chega, esse calor que me engole, de calça, com caderno, mas sem pressa, relógio guardado, sinto falta do anel quando o tiro. Olhar, esperar, mas ta muito quente, e só quando na música me disseram 'vou ficar por um triz pra voltar e dizer que o que fiz foi somente eu quem quis' me fez querer escrever um texto, não esse, outro. Esse quem me deu foi um passageiro, ou o passageiro, assim, com artigo definido, mas eu não cheguei nele ainda, tenho que continuar dizendo o quanto tava quente, muito quente. 

O sol, os carros, o horário, minhas roupas, meu andar, meu suor, tava quente, e meu cabelo grudou nas minhas costas. Mas meu dia ia ser bom, tava escrito no céu. Assim, bem de azul. Então o ônibus chegou, e eu sentei, e é assim que começa a história.

Eu sentada. Assim, só sentada, sem olhar muito, sem ouvir muito, sem pensar em nada mais complexo do que 'será que eu vou chegar lá que horas'. Nada mais que de repente, a bateria acabou enquanto eu batia o pé num rítimo fixo e antes que eu pudesse pensar em parar de acompanhar a música que não estava mais tocando, eu percebi meu pé em sintonia com o pé do passageiro que acabara que sentar ouvindo música também. Aquilo foi bem estranho. Estava às dez e vinte e cinco se eu fosse usar o 'relógio imaginário indicador de posição'. Abriu a janela e... Mas que bendito vento do meio-dia. Uma das melhores sensações do ano foi um sopro em meu colo úmido de mãs dadas com aquele perfume que eu não faço a mínima noção do nome, mas que tava muito bom, mesmo, de verdade, mas que coisa divina. 

Mas ele também tava suando, assim, um gota escorrendo como quem pirraça usando calor e sede. Se tivesse acabado de tomar banho, se tivesse andado antes de chegar no ponto, se fosse o dito perfume, ou seria o próprio suor a exalar aquele cheiro. Definitivamente eu tenho prazer olfativo, e memória olfativa também. Minha curiosidade poderia passear em imaginação e tentar responder onde mora, qual é a sua graça, que santo preza por você, me diga que música era aquela que você ouvia, por onde você andava por todos esse anos e não sei quantas mais respostas úteis. Mas eu de olho fechado só consegui pensar em porque eu nunca tinha sentido aquele cheiro antes.

sábado, 28 de março de 2009

searching for a better way

Oito e quinze, elevador, e vinte, trânsito. Meu sábado não ia ser um dos melhores, as minhas sobrancelhas já diziam em bom tom. 'Você tá tensa'. Não sei bem se esse seria o melhor adjetivo, mas não estava muito longe disso. Assim, cedo, estava eu fugindo da minha emocionante rotina. Na verdade, não fugindo dela, mas transferindo-a de lugar, um lugar onde eu pudesse concretizá-la no longe, no frio, no branco. Numa biblioteca. Longe das paredes verdes do meu quarto, sem o assovio da minha janela, sem as vozes da televisão da sala, sem a oportunidade do travesseiro sussurrar meu nome. 

Eu esparava muito profundamente que esse meu plano desse certo. Minha ilusão era que meu cérebro trabalhando com memória associativa estive ligando meu espaço com a hora de descanso, e uma mudança pra um lugar propício eu conseguiria enfim, estudar quantas horas seguidas meu estômago sem almoço pudesse alcançar. Assim, sem descanso, mas minha força de vontade anda pedindo carta de aponsentadoria e isso me soa tão estranho. Agora era hora de estar plenamente afim, e estou, mas minha dedicação que era unifocal hoje divide espaço com outras questões, que sejam elas, banais, mas ando com a sensação de que me falta a décima terceira fragância pra completar meu cheiro, e isso me consome. Façam o favor de sair de minha cabeça. Talvez seja mais normal do que eu imagine, ainda mais assim em plena fase de transição e no centro do olho de um furacão de informações e mudanças bem significativas. 

'Esse sinal demora de abrir, né'. É, eu sempre soube que sim. Mas naquela manhã eu não soube classificar se demorava ou não. Minha relação com meu relógio está sendo muito mais conturbada do que já foi um dia. Organização e paciência, não se acha no supermercado, e nem se  deveria achar. Ui, ui, meus problemas. Esse tempero ta ficando mais salgado, mas fui eu quem escolheu assim, eu só preciso de um pouco de paz, eu acho. Até meu fiel mp3, tava meio de pirraça, assim me testando, como várias outras coisas durante a semana, mal contato do fone de ouvido e a música já tinha começado não sei por quantos segundos. City and Color, mergulhou no meu ouvido bem alto dizendo 'theres people searching for a better way', eu me arrepiei confesso.

Meu humor estava alterado para fora do estado normal e eu tinha pulado essa parte quando lia o manual de instruções da vida. Então eu vi por entre os carros, sobreviventes. Me mostrando a manchete do jornal, divulgando e vendendo a piarataria, vendendo quiçá seu sofrimento pro meu despertar em troca do troco. O senhor, sem as duas pernas, depois de pegar as moedas e antes do vidro fechar-se por completo apontou dizendo: 'você já viu em que estado está este pneu?'. Pronto, eu que tinha acordado às cinco pra aprender a dirigir devo ter feito algo besteira, seria mais uma ruga. Pra desfazer a rosto preocupado do meu pai, ele disse sorrindo: 'está no estado da Bahia'. E conforme o mundo é mundo, todo e qualquer abismo é navegável à barquinho de papel. Sempre há um bom motivo.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Àquilo que se vê.

Moldura clara e simples, que disfarce.

Numa mesa curta, o dia vira noite e a conversa corre horas a baixo. 'Fui anotar os defeitos e de você só achei um.' Curioso. Vivo a me redimir diante meus deslizes pensando em um modo de talvez pôr  açúcar no jeito de passar pelos corredores de minha rotina, mas nunca consegui essa proeza de notificar apenas um sozinho único defeito solitário, você veja. E qual o seria. 'você não é previsível'.

Viva o mistério da vida, pessoas previsíveis perdem o ar da graça. Catapimba

Transito entre dois mundos e não deixo de os separar apesar de estarem os dois concomitantemente me consumindo e me sendo todos os dias de existência. O ser o sentir o mostar e o agir sempre sendo testados o tempo todo, mais testes e provas e pontuações o tempo todo todos sendo avaliados, sendo, sentindo, nem sempre mostrando mas sempre agindo. Se o agir condiz com preceitos pré-estabelecidos são outros quinhentos e é ai que entra o ar da graça.

Nunca se sabe o que se passa por dentro, sem magias, tecnologias, só questionamentos, não há poder suficiente que arranque de todos os seres o mais subterraneos segredos sagrados. Eu não gosto de quem acha que consegue me ler. Meu coração é uma ilha a centenas de milhas daqui. Tenho só pena das conclusões que chegam a partir de meras deduções de minha face, e não venham confirmar, pois a vida é um grande blefe. O que é viver senão plagiar, copiar, repetir e nunca ter certeza de nada.

E venhamos, e convenhamos, vivemos nesses dois mundo assim, sem apresentá-los um ao outro e sabendo que os dois se encontram e são o mesmo dentro de si, de sua pessoa. E o fora, o que se vê, é o que se quer parecer com disfarces, até quem quer ser o mais transparente dos indivíduos não sabe de si mesmo que escondendo o óbivio só basta abrir os olhos pra ver a farsa.  Então o dia amanhece eu ainda nao dormi. Pra não amanhecer junto com o dia, para o dia, para levantar, me vestir e sorrir pra quem passar, sendo sentindo mostrando e agindo como outro qualquer que assim o faz ao levantar. Eu sou uma terceira pessoa, e minha câmera filma de uma visão aérea, tudo bem que fora de foco mas se assim não o fosse eu seria um deus

Saibamos que não há motivo maior que me faça querer substituir meu tempo comigo mesma por tempo convencional, com o normal, com o ordinário, com o nada, vazio, o mesmo, o sempre, o de todo dia, de praxe.  Igualmente aos milhares que assim o fazem sendo sentindo mostrando e agindo sabendo da plena magnitude de ser um único e exclusivo ser em toda a humanidade e que não há lugar no mundo que exista outro como você. Mas que coisa ímpar, esse espelho assim, minha identidade, minha cara, limpa, depois de lavar com sabão que passa na tv e vende a rodo e todos passam na cara e depois se olham assim, sozinhos, sem compromisso de ser pra ninguém, só pra se olhar no fim do dia, e lembrar de tudo que aconteceu, se julgar e se dizer o que se quer ouvir e se falar o que se quer dizer e pronto e ponto. Assim se segue, com as vozes todas diferentes que repetem as mesmas frases e assistem o ciclo da vida começar e acabar começar acabar e é incrível que mesmo estando todos mergulhado num mar de infinitas possibilidades existe e persiste a tendencia de se mostrar o obivio e repetir o que ja foi feito e o que é garantido, o que é aceito. 

Então o poder criativo dos seres pensantes se limita a trocar o prato do cardápio do dia sendo que os mesmos ingredientes que vêm dos mesmo lugares estão à mesa, e só se muda a dosagem e a ordem de misturar tudo. Porque o estranho pra mim é poesia. Mas pra que diabos tenho que corresponder com preceitos com normas e regras se ninguem se encarrega de manter a ordem. E agora eu fico na dúvida se mostro ou nao mostro aos meus filhos que a liberdade não existe. Vou dispor essa descoberta ao proprio senso critico de cada um e que eles se peguem em plena nove da noite gastando tempo, se achando a filosofia em pessoa, sem perceber que todas essas palavras mal ditas caem sempre no mesmo clichê, o mesmo o mesmo, mas isso não é bobagem. Pelo menos serve pra se chegar à singela conclusão de que  nascemos, crescemos e morremos num grande e eterno museu de novidades.